terça-feira, 6 de julho de 2010

Faleceu a escritora Matilde Rosa Araújo

Óbito

Morreu a escritora Matilde Rosa Araújo

06.07.2010 — 10:27 Por Lusa, PÚBLICO

A escritora Matilde Rosa Araújo morreu hoje de madrugada, na sua casa, em Lisboa, aos 89 anos, disse à agência Lusa fonte da família. De acordo com fonte da Editorial Caminho o corpo de Matilde Rosa Araújo será velado hoje na sede da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa.

Nascida em Lisboa a 20 de Junho de 1921, numa quinta dos avós em Benfica, Matilde Rosa Araújo licenciou-se, em 1945, em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, tendo feito uma tese sobre jornalismo. Depois, foi professora do ensino técnico profissional em várias cidades do país, tendo ficado efectiva no Porto. Foi também professora do primeiro curso de Literatura para a Infância, na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Enquanto estudante, foi aluna de Jacinto do Prado Coelho e Vitorino Nemésio e colega de Sebastião da Gama, Luísa Dacosta, David Mourão-Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues.

Autora de livros de contos e poesia para adultos e de mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças — como "O Sol e o Menino dos Pés Frios", “História de uma Flor” e “O Reino das Sete Pontas” — dedicou-se intensamente à defesa dos direitos das crianças através da publicação de livros e de intervenções em organismos com actividade nesta área, como a UNICEF em Portugal.

Três eixos da infância

Nos seus livros, a autora centrou-se sempre em três grandes eixos de orientação: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto. Em 2004, quando recebeu o Prémio de Carreira da SPA, Matilde Rosa Araújo afirmou que “os jovens lhe ensinaram uma espécie de luz da vida”, porque “o seu olhar é de uma verdade intensa e absoluta”. Entre os seus livros mais importantes para a infância contam-se “Os direitos das crianças”, “O palhaço verde” e “O livro da Tila” — nome pelo qual era conhecida entre os amigos.

Ávida pelos jornais, Matilde Rosa Araújo foi colaboradora da imprensa nacional e regional, como “A Capital”, “O Comércio do Porto”, “República”, “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e “Jornal do Fundão” e nas revistas “Távola Redonda”, “Graal”, “Árvore”, “Vértice”, “Seara Nova” e “Colóquio/Letras”.

Desde cedo preocupada com os direitos das crianças, tornou-se sócia fundadora do Comité Português da Unicef e do Instituto de Apoio à Criança. Escreveu várias vezes sobre o interesse da infância na educação e na criação literária para adultos e sobre a utilidade da literatura infanto-juvenil na formação dos mais novos.

Apesar da sua actividade em diferentes campos, foi sobretudo como escritora que Matilde Rosa Araújo se tornou mais conhecida, dado ter desenvolvido intensa actividade literária para o público adulto e infanto-juvenil, obtendo nesta área diversos galardões e tendo vários volumes publicados no estrangeiro.

Estreia em 1943

A sua estreia na literatura teve lugar em 1943 com “A Garrana”, uma história sobre a eutanásia com a qual venceu o concurso “Procura-se um Novelista”, do jornal “O Século”, em cujo júri de encontrava Aquilino Ribeiro. Para o público adulto escreveu também “Estrada Sem Nome”, obra galardoada num concurso de contos da Faculdade de Letras, “Praia Nova”, “O Chão e as Estrelas” e “Voz Nua”.

Na literatura para crianças, o primeiro título publicado foi “O Livro da Tila” (1957) — escrito nas viagens de comboio entre Lisboa e Portalegre, onde leccionava, e cujos poemas foram musicados por Lopes Graça. Seguiram-se “O Palhaço Verde”, “História de um Rapaz”, “O Sol e o Menino dos Pés Frios”, “O Reino das Sete Pontas”, “História de uma Flor”, “O Gato Dourado”, “As Botas de Meu Pai”, “As Fadas Verdes” e “Segredos e Brincadeiras” e os mais recentes “A saquinha da flor” e “Lucilina e Antenor”, entre cerca de 40 títulos. Com ela colaboraram várias gerações de ilustradores portugueses, de Maria Keil a Gémeo Luís e a João Fazenda.

Em 2009, foi publicada a obra “Matilde Rosa Araújo — um olhar de menina”, uma biografia romanceada da escritora com texto de Adélia Carvalho e ilustração de Marta Madureira. Membro da Sociedade Portuguesa de Escritores (actual APE), Matilde Rosa Araújo ocupava um cargo directivo quando, em 1965, a instituição premiou o angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal, o que levou a PIDE a invadir as instalações e a demitir a direcção.

Muitos prémios e uma condecoração

O Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian (1980), que lhe foi atribuído ex-aequo com Ricardo Alberty, foi um dos primeiros entre os muitos que a sua obra literária viria a conquistar. Em 1991, recebeu o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, por “O Palhaço Verde”, e cinco anos depois viu a obra de poesia “Fadas Verdes” ser distinguida com o prémio Gulbenkian para o melhor livro para a infância publicado no biénio 1994-1995. Já em 1994, Matilde Rosa Araújo fora nomeada pela secção portuguesa do IBBY (Internacional Board on Books for Young People) para a edição de 1994 do Prémio Andersen, considerado o Nobel da Literatura para a Infância.

Em 2003, a escritora foi ainda condecorada, a 8 de Março, Dia da Mulher, pelo Presidente Jorge Sampaio, e em Novembro a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) decidiu, por unanimidade, agraciá-la com o Prémio Carreira (entregue em Maio de 2004), pela sua “obra de particular relevância no domínio da literatura infanto-juvenil”. “É uma generosidade muito grande por uma carreira que me deu mais a mim do que eu dei a ela”, disse a escritora na altura em que recebeu o prémio da SPA.

Matilde Rosa Araújo — que dizia conhecer dezenas de estabelecimentos de ensino do continente e ilhas — mantém-se viva através da Escola Básica 2,3 de São Domingos de Rana e da Biblioteca Municipal de Alcabideche, em Cascais, que foram baptizadas com o seu nome, tal como sucedeu a um prémio revelação na literatura infantil e juvenil instituído pela autarquia daquela vila em 1998.

Fonte: PÚBLICO

Um comentário:

A.Meirelles disse...

muita pena porque era uma grande escriora e a comunicação social devia-lhe dar mais interesse ainda mais que saramago e no que me lembro foi muito precisa no ensino primário