segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Margarida Louro Felgueiras: «O mestrado hoje é a continuação da licenciatura»

Parece-lhe que, hoje, um mestrado é encarado de forma diferente pelos alunos em relação à forma como era encarado há 10, 15 anos? O que mudou?

Na verdade muita coisa mudou. Se não observe. A criação de cursos de mestrado constituiu, do meu ponto de vista, um passo decisivo na democratização de uma cultura de nível superior. Anteriormente, quem se atrevia a enveredar por um doutoramento, por exemplo, tinha de pedir a alguém o favor de o orientar. A relação era esta – de favor! Se o professor não se interessasse não aceitava orientar.

Por sua vez, mesmo aceitando, não se sentia muito obrigado a despender o seu tempo com o orientando. Isso ficava sujeito à disponibilidade e ao critério do que cada um entendesse ser o trabalho de orientação. Entenda-se que não estou a criticar as pessoas ou a dizer que a orientação não fosse boa. Não é isso. O que pretendo dizer é que não havia regra e a situação, como disse, era dependência, de favor. Ora, com os cursos de mestrado, os estudantes têm direito a um orientador. Há regras que têm de ser observadas (o que não significa que sejam sempre cumpridas… mas há regras) e são os próprios orientados que nos exigem uma resposta a tempo.

Apesar da orientação ser sempre uma relação muito pessoal ela é, antes de tudo, institucional e profissional. Esta é uma condição básica para o alargamento e a democracia científica e cultural nas nossas sociedades. O mesmo vai acontecer com os doutoramentos. Daqui a alguns anos talvez me pergunte: Porque aumentaram tanto os doutoramentos? Uma das razões será porque existem institucionalizados cursos de doutoramento. Mas há razões mais imediatas também.

O mestrado hoje é a continuação da licenciatura. A licenciatura, na realidade é o que foi para a minha geração o bacharelato. E as pessoas tiravam na sua maioria a licenciatura, pois sabia-se que a um prazo muito curto ficariam subalternizadas e a sua formação muito limitada. Agora o sentimento também é esse. Repare que houve cursos e ordens profissionais que se bateram pelo “mestrado integrado”. É o caso das Engenharias, por exemplo, da Psicologia, dos que tem por finalidade o ensino. Ou seja, há um conjunto de actividades que só reconhecem o diploma válido para exercerem a actividade antes praticada por licenciados, só após a realização do mestrado. Veja-se a polémica instalada na Ordem dos Advogados. Não acontece com os engenheiros ou os psicólogos, pois esses grupos profissionais actuaram a nível europeu para imporem a formação de 5 anos como indispensável para o exercício da profissão. Que era a situação anterior das licenciaturas.

É evidente que a segmentação da formação superior em 3 níveis ou ciclos : 3 anos de licenciatura +2 anos para o mestrado +4 anos para o doutoramento, exigiu a definição de um suplemento aos diplomas em que se enunciam as competências profissionais de cada ciclo de estudos. O que significa que se alguém não puder continuar, por qualquer motivo, tem um grau certificado por diploma, que lhe atribui determinadas competências profissionais. Ou seja, alguém com 3 anos de uma Faculdade não é um indiferenciado que não acabou um curso. Essa pessoa tem uma formação que lhe permite desempenhar um conjunto de tarefas. Penso que o pensamento subjacente é que toda a formação seja contabilizada e valorizada.

Há ainda um facto novo: o mestrado profissionalizante. O estudante pode optar por defender uma dissertação usual trabalho académico ou fazer um estágio, desenvolver um projecto e fazer e defender um relatório. Ora os jovens, sem experiência profissional, vêem nesta opção uma forma de terem contacto com o mundo do trabalho, ainda que temporariamente e assim aumentar a sua empregabilidade. E isto atrai muitos à realização do mestrado.

Já os profissionais que vêm fazer mestrado optam mais pela dissertação, pois pretendem aprofundar a reflexão teórica sobre determinado tema. Estas parecem ser as tendências dos estudantes, não quer dizer que seja sempre assim, como é evidente. Mas estas possibilidades vieram alterar um pouco a relação dos estudantes face à frequência do mestrado.

Continua…

Correio da Manhã

Nenhum comentário: