domingo, 10 de outubro de 2010

OPINIÃO > Manuel Maria Carrilho: «Ver, para lá do teleponto»

A ironia da história não podia ter-se revelado maior ao confrontar-nos, precisamente em cima do primeiro Centenário da República, com a anunciada iminência do seu colapso.

Um colapso que traduz a chegada ao seu termo de um ciclo que, mais que o dos últimos anos — por incontornáveis e pesadas que sejam as suas responsabilidades —, é sobretudo o do ciclo das últimas três décadas e meia.

Com efeito, é disso que agora se trata — do fim de um ciclo que teve o seu elemento central mais constante numa aposta nas políticas de betão e numa regular desvalorização das políticas de exigente qualificação do país, fosse em que área fosse.

É esse o fio que, com poucas excepções, atravessa estes 36 anos, mais de 20 dos quais a receber milhões e milhões de euros por dia da União Europeia, a que é preciso juntar os milhões e milhões das inúmeras privatizações entretanto feitas.

E o resultado aí está: Portugal é hoje o primeiro país da OCDE em quilómetros de auto-estrada na percentagem do PIB. A região de Lisboa e Vale do Tejo é a região da União Europeia com maior densidade de auto-estradas. Temos o dobro da média europeia em percentagem de auto-estrada na rede viária total. E tudo isto apesar de muitas das nossas auto-estradas nem sequer satisfazerem o critério internacional de tráfego que justifica a decisão da sua construção.

Mais: Portugal tem hoje cerca de um milhão de casas devolutas e mais de 300 mil casas à venda, porque nos anos 80 se construíram 28 mil fogos por ano, nos anos 90 esse número passou para mais do dobro (64 mil), e entre 1998 e 2001 se chegou a 110 mil. E por aí se continuou, enquanto foi possível…

Como este investimento no betão foi acompanhado pelo aumento das funções do Estado e pelo crescimento dos serviços, sem alterações significativas na estrutura e no potencial dos sectores exportador e turístico, o País viveu sobretudo do seu mercado interno, com as limitações decorrentes da sua pequena dimensão, da maior concorrência e da multiplicação dos desafios externos, nomeadamente desde os anos 90.

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Diário de Notícias

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