terça-feira, 11 de novembro de 2008

OPINIÃO > Rui Silvares: «Avaliação»

Um texto de Rui Silvares, publicado hoje na rubrica «Cartas ao Director» do jornal PÚBLICO.

Cheguei a casa vindo da extraordinária manifestação de professores que hoje voltou a encher as ruas de Lisboa. Passaram apenas oito meses sobre a manifestação anterior e a força do protesto cresceu. Cresceu na forma e na razão, uma vez que, nestes oito meses, a ineficácia do modelo de avaliação que o Ministério da Educação teima em remendar a cada dia que passa se torna cada vez mais evidente aos olhos de toda a gente.
Liguei a televisão e assisti à entrevista que Maria de Lurdes Rodrigues deu no Telejornal do primeiro canal. Fiquei, mais uma vez, impressionado com a prestação da senhora. O discurso de Maria de Lurdes é sempre o mesmo. Afirma e reafirma, de forma automática e cara séria, a bondade das suas propostas. Insiste que os protestos são fruto de manipulação política e que os professores não têm razão. Afirma e reafirma a necessidade de avaliar, de reformar, de transformar o sistema educativo e, nesse aspecto, estamos todos de acordo. É necessário mudar, evoluir, transformar, porque o mundo não pára e é necessário acompanhá-lo. A escola é um reflexo do mundo que a rodeia e, como tal, precisa de reformas como de pão para a boca. Mas essas reformas têm de ser razoáveis, inteligentes, ágeis, promovidas por pessoas capazes. Não se pede a um sapateiro que desenhe o currículo de um curso de Filosofia. Por muito bom que o sapateiro seja eficaz na sua profissão, que consiste em remendar botas e sapatos, um curso de Filosofia por ele concebido dificilmente terá qualidade suficiente, mesmo que o sapateiro coloque nele toda a sua paixão, capacidade intelectual e conhecimento geral do mundo circundante. O que Maria de Lurdes não consegue ver é que a qualidade do trabalho do ministério a que preside está ao nível desse hipotético curso de Filosofia engendrado com a sapiência de um sapateiro.
Desde a primeira hora que o trabalho desta equipa ministerial é mau. As demonstrações de inépcia, desconhecimento geral e falta de tacto e sensibilidade são constantes e consecutivas. Basta fazer uma pequena retrospectiva e recordar alguns episódios exemplares para constatarmos a falta de competência dos secretários de Estado e de toda a babilónica estrutura do Ministério da Educação. O modelo de avaliação que agora se discute não é mais que a cereja no topo de um bolo podre e malcheiroso.
Este é o problema que falta equacionar. Nas discussões em torno dos problemas que fazem do nosso sistema educativo um caos, raramente se coloca a hipótese de haver inépcia pura e simples por parte do ministério. Maria de Lurdes Rodrigues reafirma constantemente a necessidade das reformas que pretende impor mas nunca pensa que essas reformas podem, pura e simplesmente, estar erradamente equacionadas e ainda pior implementadas. E é isso que se passa, na dura realidade a que ela não consegue aceder.
Seria de primordial importância avaliar o trabalho de Maria de Lurdes Rodrigues e da sua equipa do mesmo modo que se pretende avaliar o trabalho dos milhares de professores que esta tarde se manifestaram em Lisboa. Se os secretários de Estado da Educação tivessem de declarar à partida para o ano lectivo objectivos relacionados com o sucesso dos que se vêem obrigados a trabalhar sob a sua orientação reprovavam sem apelo nem agravo. Se tivessem de apresentar grelhas de avaliação que reflectissem as suas práticas quotidianas ou fossem obrigados a submeter as suas sessões de trabalho preparatório das políticas educativas à apreciação de peritos imparciais não tinham a mínima hipótese e seriam postos no lugar que lhes compete: o olho da rua. É isso que faz falta para podermos aspirar a melhorias no nosso sistema de ensino, falta avaliar com qualidade e rigor o trabalho do ministério porque, com um tão mau serviço prestado pela tutela, não há a mínima hipótese de conseguirmos resultados positivos.
Rui Silvares
Cova da Piedade
Fonte: Público | Terça-feira, 11 de Novembro de 2008

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