domingo, 5 de dezembro de 2010

«Organizações neuróticas»

Economia

Organizações neuróticas

por Miguel Pina e Cunha

Director de MBA da Universidade Nova de Lisboa

26 Maio 2006

Voltando à influência de Freud sobre a investigação em gestão, uma área que atraiu grande interesse foi a da liderança. Recebeu particular atenção a relação entre líderes e subordinados, assim como o impacto do líder sobre a “personalidade” da organização. Kets de Vries e Miller (1984), num livro sobre as neuroses organizacionais, referiram cinco modelos da organização, fortemente relacionados com a liderança (ver caixa).

Numa perspectiva clínica da dinâmica organizacional, e quanto aos tipos de organização neurótica, uma breve descrição pode ser:

1. Dramática/ciclotímica:

Procura intensamente receber atenção do exterior, tenta impressionar constantemente os outros, procura mostrar uma imagem feliz. Denota grandes alterações de humor e uma sobrerreacção a eventos menores;

As pessoas experimentam a sensação de controlar os seus destinos, não sentindo que estão à mercê dos eventos;

A tomada de decisão é marcada pelo arrojo, pelo risco e pela extravagância;

Tende a ser conduzida por líderes empreendedores que seguem os seus sonhos e intuições.

Um exemplo típico é a Virgin, cujo CEO é o exuberante Richard Bronson.

2. Desconfiada/paranóica:

Está impregnada pela desconfiança e pela paranóia, pela hipersensibilidade a significados e motivações escondidos, pela hiperatenção aos problemas, e pela hipervigilância aos “inimigos”;

As pessoas olham por “cima do ombro” para identificar quem pretende “tramá-las” e procuram constantemente modos de confirmar as suspeições sobre as outras pessoas;

A focalização nas ameaças externas conduz à centralização do poder e à inibição da iniciativa.

O primeiro império de Robert Maxwell corresponde a este tipo.

3. Compulsiva

Preocupa-se com trivialidades, denota um conjunto rígido e bem definido de regras. Os sistemas de informação são elaborados e ritualizados e os procedimentos de avaliação são exaustivos;

A hierarquia tende a ser muito rígida, e o status do executivo deriva precisamente da posição nessa hierarquia;

As relações são definidas em termos de controlo e submissão;

A espontaneidade é fraca. Como consequência, esta organização tende a ser lenta e não adaptativa.

A IBM sob a liderança de John Akers revelou traços típicos desta configuração.

4. Distanciada/ desligada:

Revela uma atmosfera emocional fria. Nela prevalece o não envolvimento com outros, tanto no interior quanto no exterior da organização;

Indiferente à crítica e ao elogio, denota grande défice de entusiasmo;

Estando os líderes de topo distanciados, emerge por vezes algum vazio de liderança, que conduz a jogos de poder destrutivos nos níveis intermédios e da base. Daqui resultam também estratégias inconsistentes e vacilantes;

A criação de feudos reduz a liberdade de circulação da informação.

O império do eremita Howard Hughes (que incluía a Pan Am; veja o filme O Aviador) possuía muitas características deste teor.

5. Depressiva:

É prenhe de inactividade, de falta de autoconfiança, de forte conservadorismo e de grande “estreiteza de espírito”;

O sentido de orgulho das pessoas é fraco, muitas vezes devido aos “esqueletos no armário”;

O passado domina o pensamento, e a tomada de decisão é marcada pela indecisão e pela fraca propensão para o risco. A liderança é apática e inactiva;

Por vezes, este tipo de organização é extremamente burocrático e hierarquizado — factores adicionais que impedem mudanças significativas;

A Disney, assim como a Reader’s Digest, nos anos subsequentes à morte dos seus respectivos fundadores, passou por uma fase depressiva deste teor.

O trabalho de Kets de Vries é especialmente saliente neste terreno psicodinâmico, tendo-se notabilizado pelo grande volume de investigação sobre o “teatro interno” dos líderes e sobre a irracionalidade individual e organizacional. Numa comunidade obcecada com a racionalidade, a proposta do autor revela-se especialmente atraente. A sua análise acomoda no “divã” psicanalítico líderes tão diversos quanto Alexandre, o Grande, Henry Ford ou Shaka Zulu. Para o autor, a compreensão do comportamento dos líderes obriga a ter em consideração os seus motivos profundos, uma perspectiva bem distinta daquela que tende a dominar as discussões da gestão.

Para desenvolver o tema:

Kets de Vries, MFR (2004). Organizations on the couch: A Clinical Perspective on Organizational Dynamics. European Management Journal.

Kets de Vries, MFR & Miller, D. (1984). The Neurotic Organization. San Francisco: Jossey Bass.

Diário de Notícias

via Terrear

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