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sexta-feira, 15 de julho de 2011

OPINIÃO > Baptista-Bastos: «Esta ameaça que paira sobre nós»

O documentário grego A Dividocracia, exibido pela SIC, é um requisitório impressionante, por didáctico, contra o capitalismo ultraliberal, que está a destruir, na Europa e no mundo, o resto das sociedades solidárias. O cerco feito às nações periféricas obedece à estratégia que visa a imposição de uma hierarquia do poder económico sobre o poder político. Eis as origens desta nova “guerra fria”.

Não chega dizer-se que a batalha se estabelece entre o dólar e o euro, e que a União Europeia está seriamente ameaçada. O documentário esclarece que a limitação entre as esferas económica e política foi dissolvida, e a sua “legitimação” estabelecida por argumentos fraudulentos. Assistimos, neste momento, em Portugal, à ilustração da tese. O Governo não só se afirma reverente ao memorando da troika (subscrito pelo PS, não o esqueçamos) como declara desejar ir mais além. Neste mundo de regras absurdas, de compressões e de constrangimentos, a democracia está ameaçada e a liberdade corre perigo.

Os abusos do poder encontram os portugueses desprotegidos e debilitados. As margens incertas da “estabilidade” servem para dar a ideia de um equilíbrio institucional inexistente. E o que é dito na imprensa, nas rádios e nas televisões é o mais ignaro compromisso com a leviandade e com a servidão. As coisas têm profundas relações umas com as outras. Quem e que instituições nos fizeram devedores de quantias extraordinárias? A ideia circulante fundamenta-se em que os políticos actuais são medíocres ou corruptos. Serão tudo isso, e as provas e os testemunhos no-lo afiançam. Mas uma nova grelha de leitura e de interpretação dos factos conduz-nos à compreensão de que a ideologia neoliberal não é associável à democracia, pela sua própria natureza totalitária.

Numa entrevista à revista Notícias Magazine, Maria de Belém Roseira, à pergunta: “Considera que o governo financeiro e económico que o mundo tem é condenável?”, respondeu: “É absolutamente destrutivo. Há um sociólogo, Ulrich Beck, que diz mesmo não perceber como é que o neoliberalismo ainda não reflectiu sobre o facto de ele próprio vir dar razão a Karl Marx por o capitalismo poder destruir-se a si próprio.” A relação ávida com o poder e com o lucro ameaça, inclusive, a identidade das nações e afronta a dignidade das pessoas. A questão é tão grave e chegou a tal ponto que Bento XVI (o qual não é, propriamente, um progressista) entendeu vituperar “os excessos demoníacos do capitalismo selvagem”. A ambiguidade consiste em que o capitalismo não é “selvagem” ou “civilizado”; é, simplesmente, capitalismo, com múltiplas e sinistras máscaras.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

OPINIÃO > Baptista-Bastos: «Educação para o ódio»

Quando o grande poeta Paul Celan saiu de Auschwitz, onde sofrera impiedosos tormentos, foi visitar Heidegger, acaso o maior filósofo do século XX e nazi nunca arrependido. Sabe-se que conversaram de tudo, sem omissões ou rasuras, e Celan não ocultou o prazer experimentado durante aquelas duas horas de convívio. Mas esta era outra gente, independentemente dos gostos e convicções. Em tempos, fui criticado por estimar e defender João Coito (que chefiou a redacção do Diário de Notícias), meu saudoso amigo e salazarista indefectível. E João Coito era reprovado, pelos seus correligionários, devido à afeição que por mim publicamente manifestava, sobretudo em artigos n’O Diabo. Esta relação situava-se no campo da honra e da integridade, se me permitem fazer uma paráfrase da explicação dada por Celan, e tomando as distâncias devidas entre nós e eles.

Dá-se o caso de, na década de 60, depois de despedido de O Século, por envolvimento na Revolta da Sé, e vivendo numa semiclandestinidade, o João Coito moveu céu e terra para eu entrar como redactor no Diário de Notícias. O meu amigo era um homem influente, mas não tanto que conseguisse opor-se a César Moreira Baptista, corifeu do regime e meu raivoso inimigo. Preparava-me para viajar até Paris e, depois, seguir para a Checoslováquia. O Urbano Tavares Rodrigues obtivera uns papéis falsos, encontrámo-nos na Pastelaria Smarta, de súbito deu-me a saudade futura de Lisboa, decidi ficar. Dormi em casa do Fernando Lopes e comi na mesma mesa fraterna. Um dia, diz-me que Manuel Figueira, chefe de Redacção do Telejornal, quer falar-me. Almoço na Varina, Parque Mayer, centro do nosso mundo, e, no final, Figueira convida-me a redigir notícias para a televisão, com, apenas, uma reserva: os recibos seriam assinados sob pseudónimo. Assim nasceu Manuel Trindade, nome de ressonâncias eclesiásticas, até que, denunciado, fui afastado, num despacho de Moreira Baptista, pobre homem.

A vida é o que é. Não me queixo, envelheço sem espanto e com ironia e vou-me divertindo, chateando uns tunantes que por aí andam. Lembrei-me, agora, destas historietas afáveis, ao ler alguns preopinantes de uma direita odienta, que confundem o desdém por delatores com fanatismo partidário. Os que nasceram sob Salazar foram educados para o ódio. De um e de outro lado. Porém, sempre julguei, ingenuamente, que a democracia boleasse as arestas desses ódios. Nada disso. Renasceu um movimento retardado de rancorosos, sem talento, sem grandeza e sem generosidade, mas com aleijões morais e prosa de mau hálito. Os netos de Salazar são incapazes de seguir os exemplos de Celan e de Heidegger. Porque continuadores do mais desprezível dos modelos.

Diário de Notícias Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

OPINIÃO > Baptista-Bastos: «O fado de todos nós»

José Sócrates continua o “animal feroz” que disse ser, ou é o “português suave”, agora investido? O comoventíssimo problema tem queimado as meninges dos augustos comentadores da política nacional. Está mais sereno, está mais humilde, está mais modesto e menos arrogante ─ disse-se e escreveu-se. Há duas semanas que esta gente tem agido segundo os princípios de um pensamento feito de frivolidades e de absurdos; e o próprio primeiro-ministro, tão reservado em assuntos realmente graves, não resistiu à tentação da irresponsabilidade e respondeu-lhes. Não há prova histórica da mudança: “Eu sou o mesmo” e “não mudo de rumo”. Parece um fado e, se calhar – “Chorai guitarras, chorai” ─, é o nosso próprio e redondo destino.

Estas minudências são o retrato oval de uma democracia de superfície, que nos incita à renúncia de pensar. Eis o que nos sussurram: as coisas são como são, e deixem a política para os políticos. Não é bem assim. Há muitos anos, conversando com o saudoso prof. Pereira de Moura, disse-lhe, a páginas tantas, que não percebia nada de economia. Respondeu-me: “Mas sabe a tua mulher quando vai à praça.”

A três meses de eleições fulcrais vivemos numa farsa sem graça e numa história aos quadradinhos. Pacheco Pereira demonstra a calamitosa ausência de humor que o caracteriza, e espirra-canivetes quando Luís Filipe Menezes lhe chama “a loira do PSD”, numa analogia (ou metáfora?) experimental e divertida. Menezes tem sido o alvo privilegiado do Pacheco, mas aquele é muito melhor, mais inteligente e culto do que a maioria dos que este tem apoiado e incensado.

Fogo-de-artifício. É só. Nada do que é importante tem sido debatido, porque a estratégia é impedir-nos de pensar e de agir. Quando a dr.ª Manuela Ferreira Leite aplaude o “manifesto” de 28 economistas (alguns não o são, nem coisa que se pareça), reivindicando o conteúdo do documento como se de ideias suas e antigas se tratasse, a natureza profunda da iniciativa fica destapada. É um texto de abolição, uma birra de gente, certamente estimável, mas com pouco para dizer. De qualquer das formas, o documento não corporiza o antagonismo que pretende representar, além de não indicar, não sugerir, não propor: somente protesta. Para protestar, os 28 são inúteis. Para isso, cá estamos nós. Vamos à praça e contamos os tostões. Não me parece que os signatários estejam em baixo de fundos, e muito menos que foram, unânime e piedosamente, movidos por um escaldante amor ao povo.

Todo este folclore não é cândido. O que está em causa é irresumível nessa espécie de competição de caracteres entre Sócrates e Manuela.

Fonte: Diário de Notícias [24.06.2009]

quarta-feira, 17 de junho de 2009

OPINIÃO > Baptista-Bastos: « Entre a certeza e a contingência»

H

á anos, num semanário que por aí se publica, José Sócrates declarou, crudelíssimo e terrível: “Sou um animal feroz.” A frase não permitia a mais exígua nesga de bondade. O homem queria apresentar-se à puridade com o estofo de um lutador indomável e o estilo de quem não hesita no uso do ditirambo. Foi gozado. Os gozadores esqueciam-se, ou ignoravam, que o exercício da política obedece a círculos concêntricos. Cedo, enfiaram a viola no saco. Com idêntica plenitude incensaram-no de rosa e levaram-no em ombros.

A Imprensa precisa sempre de vítimas e de carrascos, de santos com defeito e de heróis evasivos. Uns e outros fazem as primeiras páginas e alvoroçam os leitores. A vida dos jornalistas é uma triste configuração do Sísifo mitológico. A vida dos leitores é uma melancolia privada. Ambos rejubilam com um escândalo, por modesto que seja, ou com uma frase que passeie, desgarrada, por aqui ou por ali. Durante vinte e quatro horas, o bulício anima-os.

Sócrates beneficiou da reservada simpatia de profissionais da Comunicação que viam nele um Jacob a amarinhar pelas escadas, a caminho de um novo céu socialista. Falava desenvolto; enfrentava, empertigado, opositores, adversários e recalcitrantes; vestia caro, bom e bem; parecia não ter medo da força que apregoava. Varreu do léxico palavras e expressões presumivelmente associadas à ideia de compromisso. E também varreu a voz da rua, a angústia da rua, o drama da rua. Foi muito elogiado pelos grandes patrões, homens calculados, infalíveis e devotos.

O Governo dele tem sido este filme barato e negro, desprovido da tirania das emoções, frio, inclemente e rude. Sacudido pela derrota nas “europeias”, fechou a cara e, sem impaciência nem tolerância, logo garantiu não “mudar de rumo.” Eis o “animal feroz”, cuja indiferença pelos outros é mais do que pejorativa. E aqueles que o julgam caído por terra, comentadores de prosa com mau hálito, abjurantes de nascença, já preparados para a viragem ― que se acautelem. Para sobreviver às legislativas ele irá cerzir, aqui e ali, os rasgões provocados nesse tecido absurdo e espúrio, a que chamou “socialismo moderno” e, ligeiro e feliz, dirá “alguma coisa de Esquerda”, também ela feliz e ligeira.

Deixem correr o tempo. O tempo é mais importante do que aquilo que com ele fazemos. Temos de reconhecer este facto para admitirmos que um homem cercado, como ele foi e tem sido, não cede com facilidade. Demais, Sócrates está inebriado de poder, e os que desse poder beneficiam não estão dispostos a dispensá-lo. Les jeux sont faits. Sócrates é, para eles, uma certeza; os eventuais outros, uma dúvida e uma contingência.


Fonte: Diário de Notícias

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

OPINIÃO > Baptista-Bastos: «E, no entanto, é preciso sonhar»

Olho lá para baixo e há muitas coisas, vozes, rostos e infâmias oblíquas que já foram. O tempo não mata as dores: adormece-as. Nada é para sempre. Chega-se ao fim do ano e os homens antigos e experimentados sabem que as lembranças adquirem uma simplicidade contrária ao ressentimento. Todavia, foi um áspero, infausto e rude ano, este, que vai embora.

Houve uma época em que, com alvoroço e arfante ansiedade, escrevi: "A esperança tem sempre razão." O sonho andava à solta e eu ainda não aprendera a natureza dos perigos contidos no sonho. Mas havia sempre alguém sorrindo para mim e um horizonte luminoso à nossa espera. Reconheço, com tristeza, que a frase era um pouco imprudente, embora, talvez, nos lavasse moderadamente a alma.

(...)